Certamente o assunto mais polêmico da Revolução Farroupilha até hoje é a participação dos negros na revolta e a posição dos comandantes dela frente á escravidão. Não há resposta simples a essa questão: "os farrapos eram ou não eram abolicionistas?" pode-se afirmar que tanto negros libertos como escravos, índios, mulatos e brancos pobres envolveram-se ativamente no movimento.
Os farrapos, contrariando a maioria das revoltas acontecidas no Brasil à época, não tiveram medo de armar os escravos e conceder-lhes liberdade, caso se engajassem na luta contra o império. Spencer Leitman relata assim a captura de pelotas pelos rebeldes, em sete de abril de 1836: " terminada a batalha, os farrapos armaram cerco de 400 escravos que haviam caído em suas mãos, pois sentiam necessidade de aumentar seu exército e teriam libertado a todos se os charqueadores não fugissem para o Rio Grande, levando todos que com eles ficaram. João Manuel (de Lima e Silva) era o principal promotor do alistamento dos libertos, mestiços errantes e escravos no exército republicano que se formava. Meses antes da vitória em Pelotas, ele havia organizado alforriados numa unidade de infantaria."
Em 12 de setembro de 1836 é constituído o primeiro Corpo de Cavalaria de Lanceiros Negros, por insistência do Comandante João Manuel. A formação tinha mais de 400 homens e ocorre na véspera da batalha do Seival, onde faz importante papel na vitória sobre os imperiais. Sob comando do tenente-coronel Joaquim Pedro Soares e mais tarde do Major Joaquim Teixeira Nunes, o grupo participa da expedição a Laguna, sendo importante na constituição da Republica Juliana. Os lanceiros Negros formavam a tropa de choque do exército farroupilha. A importância deles era tão grande que a 31 de agosto de 1838 forma-se o segundo Corpo, com 426 combatentes negros.
Eles foram assim descritos por Garibaldi: " Os terríveis lanceiros (....), todos livres e todos domadores de cavalos, tinham feito movimento de avanço, envolvendo o flanco direito do inimigo, que se viu obrigado a fazer-lhes frente também pela direita, em desordem. Os valentes libertos, impotentes pela ferocidade, faziam-se mais firmes do que nunca e aquele incomparável pelotão, composto de escravos alforriados pela República, selecionados entre os hábeis domadores da Província, todos negros, exceto os oficiais superiores, parecia uma floresta de lanças. O inimigo jamais tinha visto pelas costas estes verdadeiros filhos da liberdade, que tão bem combatiam por ela. Suas lanças, mais longas do que o normal, suas caras negríssimas, suas suas robustas extremidades, endurecidas pelo constante e fatigante exercício, e sua perfeita disciplina, infundiam terror ao inimigo."
Para enfrentar a crescente participação dos negros nas tropas riograndenses, o Império baixa decreto, em 1838, instituindo a Lei da Chibata, ordenando que todo "escravo" preso junto às forças rebeldes recebesse de 200 a mil chibatadas e promete alforria àqueles que se entregasse as forças imperiais. O revide dos riograndenses mostra o pensamento da maioria das lideranças farroupilhas sobre a escravidão. Em decreto de 11 de maio de 1839, os farrapos não consideram os negros que lutavam nas tropas revoltosas como escravos e sim homens livres. Mostra ainda que a libertação dos escravos, mediante pagamento aos proprietários , não era feita só àqueles que lutavam pelos farroupilhas, mas aos que trabalhavam nas oficinas e na colonização. Destaque-se que os farrapos tinham entre seus lideres dois mulatos: o mineiro Domingos José de Almeida-ministro do Tesouro-e o carioca José Mariano de Mattos - duas vezes ministro da Guerra e da Marinha e presidente da República Farroupilha de 13/11/1838 até 14/03/1841.
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